segunda-feira, 31 de outubro de 2011

4/13 impossível acontece


“Toda primeira vez é como o riso de um bebê ao ver a mãe. É sem um antes ou um depois. É um acontecimento literalmente do presente, sem preparação ou palavras ensaiadas, é um momento que você acha que nunca vai existir e quando acontece você fica torcendo para que seja verdade e que se repita muitas outras vezes. Foi assim quando fiquei a primeira vez a sós com Dante, longe de todo aquele tumulto típico de show. Foi em Florianópolis. Era noite e todas as luzes da cidade estavam apagadas, não sei por qual motivo. Fui ao seu encontro. Seríamos apenas iluminados pelas luzes de uma marina que fica perto do hotel onde Dante sempre se hospeda. Um lindo cenário para tudo o que estava por acontecer.

Na noite que precedeu nosso encontro não consegui dormir nada. Do quarto do hotel eu olhava para a rodoviária e imaginava os motivos que levavam as pessoas até lá. Seria por amor? Um sorriso discreto me acompanhou durante a noite inteira enquanto a cidade dormia. Andei pelo quarto utilizando o pouco espaço que tinha para aproveitar cada minuto que eu podia respirar o mesmo ar que Dante. Finalmente estávamos na mesma cidade.

Era como se toda minha essência estivesse lá com ele. Ir até o hotel não poderia demorar tanto, o taxista tentou começar algum assunto, mas não consegui prestar atenção em nada, não por descaso, mas eu simplesmente não conseguia me concentrar em outra coisa que não meu encontro com Dante, eu de fato iria vê-lo. Não me lembro de nenhum outro fato na minha vida que me fez ficar tão nervosa quanto aquele dia. Dentro do elevador que me levava a Dante, tudo se misturava: imagens, sons, medo e felicidade. Eu sabia que era o momento certo, eu o amava mais do que a mim mesma.

Lembro-me que anotei o número do andar em um papel qualquer, mas apenas por segurança. Nunca me esquecerei daquele décimo quarto andar e nem das batidas do meu coração, que aumentavam à medida que o elevador subia. Quarto, quinto, sexto andar... Ainda me recordo do painel indicativo do elevador demonstrando os andares. Minha mão suava muito e eu estava me sentindo mais viva do que nunca. Automaticamente, a porta do elevador se abriu, e foi como se meu coração também aproveitasse a oportunidade e colocasse todo o meu sentimento para meu rosto, meu corpo e meus pensamentos. Sentia um frio congelante, como se eu fosse coberta por uma neve impossível de ocorrer naquela cidade, uma neve que era minha. Ao mesmo tempo, sentia o calor de mil sóis me derretendo de dentro para fora.
A primeira coisa que vi foi o lindo tapete que havia lá, tinha um vermelho vivo. Então, avistei os olhos de Dante, perdi qualquer linha de raciocínio... Malditos olhos cor de mel. A sua beleza tão sensata e curiosa e a simplicidade da voz calma faziam-me esquecer do mundo. Sem graça e sem conseguir parar de mexer no cabelo, eu amei aquele momento todo, bem como todas as consequências dele.

Nossa primeira oportunidade juntos: ele, eu e o corredor inteiro. Queria encostar logo nele para ver se era de verdade. Encostei delicadamente meus dedos no seu braço, aquilo me passava segurança porque percebi que ele, de fato, era real. A nossa imagem ficava refletida no vidro graças à luz fraca e amarelada do abajur que havia ali perto. Toda aquela cena perfeita fazia com que eu não me importasse com o amanhã ou qualquer outro dia. Dante era meu momento, comecei a pensar que éramos, inclusive, a mesma pessoa, de tão envolvida que eu estava. E ali, somente ao lado dele, eu não me importaria com nenhuma arrogância do mundo, porque ele estava comigo.

Não sabia o que falar, o olho dele sorria para o meu e tirava todo o vocabulário que eu havia adquirido ao longo da vida. Minhas mãos suavam de nervosismo, e, de tão próximos que estávamos, eu conseguia ouvir o mascar do seu chiclete. Em alguns momentos eu conseguia sentir o sabor da sua boca. Percebendo meu constrangimento, ele me falou, quase que no ouvido, sobre seu novo CD, família, sonhos e, dessa vez, sem precisar dividir a atenção com outro alguém: estávamos sozinhos dentro de nosso próprio mundo.

Nunca tive tanto medo como naquele momento, sabíamos que iríamos nos beijar. O clima que havia se formado por conta da situação falava mais alto do que o medo dos dois juntos. Os lábios de Dante sorriam para os meus e sua voz cochichava como se me contasse segredos.

 Eu estava perto de completar dezoito anos e o meu maior medo era de beijá-lo. Dante era o meu momento, o melhor deles.
- Preciso ir. – Disse a ele, segundos antes de se tornar a garota mais covarde da face da Terra.
                Dante me abraçou forte e, com a voz silenciosa, falou em meus ouvidos:
- Você sabe o quanto adoro você...

Imediatamente, a boca dele deslizou sobre os meus cabelos, tentando me roubar um beijo. E, como uma garota medrosa, afastei-me, apertando o botão do elevador para descer. Dante se distancia me observando de longe, sem conseguir entender minha atitude. Enquanto eu pedia perdão silenciosamente, vi a expressão de desapontamento se formar em seu rosto. Não que ele quisesse apenas meu beijo, mas aquela minha negação para sua investida era irracional: qual menina negaria um beijo a Dante?... continua?”

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