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O medo nos faz perder coisas e não beijá-lo naquele dia foi a única forma que encontrei de não o perder. Esse era o pensamento de uma menina de dezessete anos que só tinha beijado dois meninos até então. Queria fazer com que tudo saísse perfeito naquela noite.
Mas a vida faz sempre as coisas certas. Tinha convicção de que o meu medo não seria motivo para o fim de um futuro lindo, ele também sabia disso. Despedimo-nos através de olhares, sem nenhum contato maior. Senti-me um pouco mal por ter perdido aquela oportunidade, mas eu tinha certeza de que aquela era a escolha certa, tendo em vista que não seria a última vez que eu veria Dante.
Ficamos de novo frente a frente em uma outra viagem que ele fizera para Blumenau, também a trabalho. Agora com meus dezoito anos, sentia-me preparada para o que tivesse de acontecer. Não era nenhuma dificuldade, para mim, descobrir em qual lugar seria o próximo show, eu acompanhava a vida dele, mesmo que ele não soubesse disso.
E, mais uma vez num hotel, o elevador presenciou todo meu nervosismo. Eu ia em direção ao seu quarto como uma criança que encontra os pais depois de um longo período de solidão. Lívia, minha melhor amiga, aguardava-me no corredor. Sempre que precisei de alguém, Lívia estava lá. Ela é o tipo de pessoa que não desaponta seus amigos, que faz de tudo para os outros sorrirem, tem um coração enorme. Éramos inseparáveis no colégio e fora dele, isso nos dava uma certeza ainda maior de que nossa amizade não havia começado apenas por um grande acaso, éramos destinadas a construir uma relação de cumplicidade.
Em frente à porta dele, mesmo depois de já estar acostumada com a presença de Dante, continuava repetindo pra mim mesma:
- Estamos separados só por uma parede...
Lívia me abraçou antes de eu bater na porta do quarto de Dante, dizendo:
- Dessa vez não irei, você precisa tomar coragem e ir sozinha. Dante não quer ninguém por perto, vocês precisam desse momento.
Lívia costuma ser a pessoa mais segura que eu conheço e ela emanou sua coragem através do seu abraço. Bati com cuidado na porta. Como estava entreaberta, fui revelando aos poucos a escuridão que escondia a aparição do rosto dele. Vi que o quarto estava com uma iluminação limitada, mas, conforme eu ia abrindo a porta, num misto de delicadeza e medo, tudo ia se revelando mais claramente para mim. Dante me convidou para entrar.
Mesmo que temerosa, eu sabia que aquele seria só mais um dia em que procuraríamos conforto em algum lugar do hotel e discutiríamos sobre música. Contaríamos um para o outro os planos para o futuro e alguma pessoa que estivesse presente ficaria puxando assunto, enquanto nossos olhares ficavam presos um ao outro.
Era o nosso oitavo encontro e a segunda vez juntos, digo, juntos sem fãs e sem qualquer outra pessoa por perto. Ele me recebeu com um caloroso abraço e me convidou para sentar num sofá vermelho, no quarto duplex em que estava hospedado. As camas deviam ser no andar de cima. Havia um pedaço de tomate no chão, embaixo da mesa de lanche, da pizza que ele acabara de comer. Ele adora pizzas e isso foi motivo de risos, pois até o que poderia ser visto como descuido em outras pessoas, para mim era charme nele.
A cada encontro nosso eu via que eu estava deixando de ser a fã da primeira fileira para me tornar a garota que o deixava interessado, alguém que fazia nascer nele uma vontade de ter ao lado num lindo dia de sol, sem compromissos ou outras pessoas, só nós dois. Uma pessoa que ele sentia vontade de conhecer mais. Dante apoiou a cabeça sobre meus ombros e eu ajeitei o fio de cabelo dele que brincava com seus olhos. Ele tentou arrumar aqueles lindos cabelos do jeito que só ele sabia fazer, mas piorou tudo, como pode alguém guardar tanto charme? Durante muito tempo nos mantivemos assim, enquanto ele cantarolava suas canções, o que me fazia fechar os olhos. Em meio a um refrão fomos interrompidos por um ataque de risos meu, referente à sua gagueira charmosa. Não tinha medo daquele momento ou de beijá-lo, talvez esse tempo todo o meu único medo foi ter que vê-lo partir com uma lembrança apenas física dos nossos momentos.
É muito fácil aguentar a dor de uma imagem ilusória, mas quando ela se realiza a dor é pior porque você vive em confronto consigo mesmo, querendo o tempo inteiro voltar para aquele momento. Era, e ainda sou, completamente apaixonada por Dante, embora ele nunca venha verdadeiramente a saber o quanto.
Ficamos cerca de uma hora juntos. Perto da meia-noite decidi tomar uma iniciativa, pedindo para ele me acompanhar à porta. Nunca quis tomar muito o tempo de Dante, qualquer minuto que passasse ao lado dele era o suficiente para me fazer feliz, pouco tempo poderia ser uma eternidade com ele. Costumo dizer que o sucesso dele é o meu sucesso e, depois de um show realmente incrível, ele merecia uma maravilhosa noite de sono.
Partiríamos no dia seguinte para nossas cidades, eu um pouco mais cedo. Quando cada um estava na sua própria vida, distante um do outro, os quilômetros pareciam doer, mas quando eu estava com Dante era como se ele nunca fosse embora, uma segurança sem explicação. Sei que, de uma maneira ou de outra, ele também sentia isso. Caminhei até a porta enquanto Dante permanecia sentado me olhando.
- Preciso ir, não vai me acompanhar?
Ele permaneceu em silêncio, desaprovando minha atitude.
- Está tarde e amanhã acordo cedo. Você precisa descansar também, Dan.
Encostei-me na parede ao lado da porta, acompanhando o silêncio dos passos dele vindo ao meu encontro. Dante me encarava profundamente, deixando-me sem graça e sem saber o que fazer. Não queríamos nos despedir, mas sempre era preciso que alguém fosse embora... continua
oi td bem
ResponderExcluirnegooooooooooo